Retiro Mensal

QUARESMA 2019

Proposta de retiro no início da quaresma – Ano C

Equipe de espiritualidade, pddm

 

1. Ambiente: Antes de começar, prepara-se o ambiente: uma mesa com toalha roxa, a bíblia aberta ou o lecionário, uma vela, cadeiras em círculo.... Cuidem para que todas as pessoas tenham lugar para sentar.  

Alguém acende a vela.

2. Canto: O vosso coração de pedra

3. Introdução

a) Duas características: batismal e penitencial

Pela dúplice característica batismal e penitencial, a quaresma reúne catecúmenos e fiéis na celebração do mistério pascal”, sendo para ambos tempo de “recolhimento espiritual” (RICA, 152) que conduz à celebração da vigília pascal, na qual os catecúmenos serão inseridos no mistério pascal pelos três sacramentos e os fiéis irão renovar a profissão de fé batismal.  

b) Porta de entrada da quaresma

 “A Quaresma no rito romano goza de uma especial particularidade: duas celebrações que funcionam ao modo de abertura do tempo, a Quarta-Feira de Cinzas e o Primeiro Domingo confluem no mesmo objetivo, sem, contudo, anular mutuamente suas forças. Na Quarta-Feira de Cinzas a atenção recai sobre os fiéis, chamados e instruídos pelo Senhor para a prática evangélica dos exercícios quaresmais: oração, jejum e esmola. No Primeiro Domingo, a atenção recai sobre Jesus conduzido ao deserto pelo Espírito para vencer as tentações e reconduzir o ser humano à filiação divina (Anos A e C), e à harmonia paradisíaca (Ano B). Numa e noutra celebração, contudo, deve-se vislumbrar o Cristo inteiro, pois a Igreja não O separa dos fiéis; na quarta-feira, o evangelho propõe o movimento do Corpo eclesial para o Cristo Cabeça: em sua liberdade, os membros, enquanto cooperam com a graça, pelos exercícios quaresmais unem-se ao Filho de Deus, na sua fidelidade e na sua renúncia ao mal. No domingo, da Cabeça para o Corpo sucede o movimento inverso: Jesus adentra o deserto, guiado pelo Espírito e, na senda da filiação divina, resiste ao mal e alcança a vitória sobre o pecado e a morte. Essa mística estende-se à Igreja, aos membros que, iniciando a trilha quaresmal, são associados ao Cristo Cabeça e recobram a sua vocação batismal”. (Pe. Danilo Cesar, Belo horizonte, Revista de Liturgia, n. 248, p. 9).

b) Práticas quaresmais

Na quarta-feira de cinzas a Palavra de Jesus dirigida aos discípulos sobre a esmola, a oração e o jejum, Começa com uma advertência fundamental: “não praticar para ser vistos pelos outros”. O que está em jogo é a mudança de olhar. Reaprender a olhar a nós mesmos sob o olhar de Deus. Só ele pode julgar porque só ele conhece os pensamentos do coração. E reaprender dele a olhar os outros. A finalidade da esmola, da oração e jejum é nos tornar capazes de autoconhecimento. E o critério é a Palavra que se revela nas Escrituras, na liturgia e nos acontecimentos da vida. A Palavra revela Deus e desvela a nós mesmos... E Quem se conhece profundamente, é mais lento em julgar os outros.

4. Leitura dos textos BÍBLICOS

Primeiro domingo ano C:

- Quem coordena, indica os textos para que cada pessoa encontre e deixe marcados na sua bíblia: Deuteronomio 26,4-10; Salmo 90; Romanos 10,8-13; Lucas 4,1-13

- Pessoas previamente preparadas, fazem as leituras: primeiro o evangelho, depois a primeira leitura, depois a segunda.

- Depois de breve silêncio, repete-se uma frase ou palavra que chamou a atenção nas leituras.

- Lê-se novamente o evangelho.

- Cada pessoa localiza, agora, o texto na sua bíblia e lê, duas ou mais vezes, em silêncio e atentamente, marcando o que chamou a atenção (no mínimo 20 minutos para esta leitura pessoal).

[Se as pessoas já tiveram este tempo de leitura pessoal antes, passa-se para o momento seguinte].

- Quem coordena abre para a partilha do que cada um/a escutou para si no texto. O/a coordenador/a deve lembrar ao grupo, também, que a escuta da partilha é tão importante quanto a escuta do próprio texto. Depois da partilha, canta-se um salmo (pode ser o salmo responsorial do domingo). Conclui-se com preces espontâneas, com o Pai-nosso e com uma oração de bênção.

5. Leitura espiritual

Para ser lido pessoalmente depois da leitura pessoal e da partilha comunitária:

a) Luccas 4,1-13 [síntese do comentário de Luciano Manicardi, 2013].

Três tentações de Jesus, em três lugares diferentes indicando sinteticamente o caminho de Jesus no evangelho de Lucas: o deserto; o lugar alto e Jerusalém. Jesus é colocado à prova: deve escolher entre o fascínio do mal e a obediência a Deus e à sua Palavra. Em um ambiente de radicalidade e essencialidade - Jejum, solidão, silêncio e Palavra da Escritura – Jesus habita o próprio coração, no qual somente Deus reina. Jesus não absolutiza a própria necessidade [1a tentação]; não cede ao desejo de grandeza e prefere permanecer no limitado do cotidiano [2a tentação]; não impõe a sua messianidade com sinais extraordinários para ser aceito, mas acolhe a mortalidade da condição humana.

Jesus atravessa a tentação, não foge dela. Ou seja, não projeta a imagem do inimigo sobre as realidades externas, mas aceita ser, ele próprio, colocado à prova; aceita que a força da tentação tome lugar no íntimo do seu coração. Somente quem vence o poder do diabo (divisor)[1] dentro de si mesmo, pode expulsar o demônio nos outros seres humanos. A vitória de Cristo é interior e espiritual. A tentação é vencida com obediência a Deus na humanidade concreta, frágil e mortal. Jesus rejeita colocar Deus na condição do todo poderoso, espetacular, mas o acolhe no escuro, no silêncio, no escondimento.

Na cruz a “fragilidade de Deus” se manifestará na nudez do Filho, ele que é “a imagem do Deus invisível” [Cl 1,15]. E no rosto paradoxal de Deus se abre a esperança de salvação da criação e da cada pessoa. É a vitória definitiva contra as tentações.

b) A graça da provação [santo Agostinho][1]

 “Jesus atravessa a tentação, não foge dela. Ou seja, não projeta a imagem do inimigo sobre as realidades externas, mas aceita ser, ele próprio, colocado à prova; aceita que a força da tentação tome lugar no íntimo do seu coração. Somente quem vence o poder do diabo (divisor)[2] dentro de si mesmo, pode expulsar o demonio nos outros seres humanos. A vitória de Cristo é interior e espiritual” (Luciano Manicardi, monge de Bosi).

“A nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações. Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também aonde a cabeça os precedeu”.

c) A eficácia da Palavra [André Louf, monge trapista][3]:

O modo mais simples para nutrir a vida cristã é a frequentação da palavra de Deus; é lá que o coração se vivifica e exulta, abençoado pela Palavra. Não é algo que acontece todos os dias, mas os crentes mais experimentados sabem que chega o momento no qual o coração se ilumina... E são as palavras do evangelho que determinam toda a existência. Uma palavra torna-se a expressão de toda uma vida, como aconteceu, por exemplo, com Francisco de Assis. É um acontecimento muito importante. Quando a Palavra de Deus se faz presente, de repente tomamos consciência da vida interior, nos damos conta de que alguma coisa se modifica. Antes, sabíamos que era assim em um nível racional, podíamos até encontrar explicações e argumentações, mas quando passamos pela experiência adquirimos uma certeza interior, tão forte que é capaz de conduzir a pessoa a uma unificação. Uma vez despertada, a vida interior dá à inteligência a possibilidade de falar ‘de outro modo’; não usando outros conceitos, mas partindo da própria vivência. É a mesma diferença que existe entre uma teologia que parte da razão e uma que emerge da experiência”.

d) O silêncio como deserto (Jean Yves Leloup):

“Aprenda com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos. Aprenda com o silêncio a aceitar alguns fatos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, a evitar reclamações vazias e sem sentido. Aprenda com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido. (...) Aprenda com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar. Como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa. (...) Aprenda com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares. (...) Quando uma pessoa conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência. A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder. Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência. Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que grande parte da humanidade nem percebe a sua ação. ‘O êxito ou o fracasso de sua vida não depende de quanta força você põe em uma tentativa, mas da persistência no que fizer’. ”


[1] Agostinho, Liturgia das Horas, II, p. 75). Ofício das leituras, do 1º dom da quaresma]

[2] Diabo é aquele que divide (diabólico), aquele que desvirtua o humano e o divino e desvia do caminho de Deus. O Apocalipse o identifica com o delator dos irmãos.  (Diabólico é o oposto do simbólico, o que une).

[3]LOUF  André.  Revista Jesus, n. 8, agosto 2001, p. 79.

 

 


4ª FEIRA DE CINZAS

QUARESMA: RECEBER O PERFUME DE NOSSAS CINZAS

“Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto...” (Mt 6,17)

 

Quaresma é tempo favorável para “ordenar a própria vida” na direção do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de “ordenamento” aconteça, o tempo litúrgico quaresmal nos convi-da a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, com os outros, com o mundo e conosco mesmo.

No Evangelho fala-se das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de proceder de Jesus. Quê sentido tem, para nossa cultura, estes três gestos que são propostos para uma vivência fecunda da Quaresma?

Em primeiro lugar, são três gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com sentido; eles condensam o sentido da vida cristã. A vida é um abrir-se aos demais (esmola), um mergulhar no mistério de Deus (oração) e ser capaz de ordenar e dirigir a própria existência (jejum). É preciso criar espaço novo no coração e na mente, para que coisas novas aconteçam.

Vividos a partir da identificação com Jesus Cristo, os valores da oração, da esmola e do jejum esvaziam nosso “ego” para nos aproximar dos pobres e excluídos, encher-nos de compaixão e misericórdia, exercitar-nos na prática do bem e da bondade, acolher o outro com sinceridade, perdoar gratuitamente, cuidar com ternura e admiração tudo o que nos cerca, encantar-nos com o mistério da vida, deixar-nos envolver pela graça e permitir que o amor circule em nós e no mundo, gerando vida em abundância.

Trata-se de um “modo de proceder” permanente, não só para o tempo quaresmal.

 

Há “quaresmas” na vida que nos atingem “fora do tempo”, em qualquer momento do ano; quaresmas que não queríamos viver e que sabemos que não nos resta outra alternativa a não ser passar por elas: enfermi-dades, momentos de crise, etapas de ruptura, tempos de luto por um ente querido que se foi...

Mas há quaresmas que são a vida mesma, o tempo cotidiano de muitas pessoas, especialmente dos mais empobrecidos e sofredores de nossa sociedade. Todas estas realidades não são mudas: fazem chegar seus gritos a cada um de nós e nos falam de nossa limitação, de nossa fragilidade, de nosso pecado...

Quando os fiéis entram na fila para receber, sobre suas cabeças, um pouco de cinzas, na quarta-feira que dá início à Quaresma, eles não estão fazendo um ato derrotista, nem expressando uma tristeza inútil, nem  mergulhando na escuridão daquilo que o fogo destruiu. Eles estão fazendo uma profissão de fé na força da esperança. Mesmo que tudo pareça arruinado, há uma potência interior que não permite ao ser humano desistir de si mesmo nem dos outros. Ela recobra a energia do perdão, o ânimo para prosseguir no caminho da vida, a confiança nas pessoas, a amizade que ficou ameaçada.

 

Nossas cinzas tem um valor muito diferente segundo sua origem. A imagem de uma mulher abatida diante do incêndio de sua casa e que perdeu todos os seus pertences, não é igual à cinzas de uma chaminé da casa de campo. “Cinzas: de quê?” Essa é a questão.

Nossas cinzas são uma recordação da fragilidade na qual nos movemos na vida: o que perdemos, desper-diçamos da vida que nos foi dada; o amor aos outros que queimamos inutilmente; a terra calcificada de nossas indiferenças e de nossas cumplicidades; os sonhos que não permitimos que chegassem a ser realidade, queimados pela chama da nossa intolerância; os bons desejos que deixamos à beira do caminho, destruídos lentamente pelos pavios fumegantes...

De tudo isso temos que nos revestir; isso é o que carregamos sobre nossas cabeças, que se inclinam com humildade, ante o gesto sagrado. A sorte que temos é que nos é anunciado também um caminho novo, abre-se diante de nós um caminho para percorrer, desperta-se o fogo novo do amor, ativa-se uma nova energia criativa, mobilizam-se inéditos recursos internos... para dar uma nova feição ao nosso seguimento de Jesus.

Portanto, no sentido bíblico, a cinza é força, espírito, vida, projeto, síntese e realidade carregada de futuro. É esperança, é ressurreição; é renovação e conversão, de tudo o que é nosso e dos outros. É comunhão e renascimento. A cinza é purificação.

 

A finalidade da imposição das Cinzas e a vivência das práticas quaresmais (oração, jejum e esmola) é nos ajudar a fazer uma “travessia interior”. Não se trata de viver a Quaresma só retocando, com certa “maquiagem cristã”, o exterior de nossa vida. É preciso deixar que a Graça de Deus encontre liberdade para transitar pelos recantos mais “escondidos” do nosso eu profundo. “E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Nosso coração há de empapar-se desta Graça, desse afeto a Jesus e ao seu Reino, que nos conduzirá até à alegria da Páscoa.

Precisamos de tempos, silêncios, espaços..., para criar um ambiente favorável para o encontro verdadeiro com Aquele que sempre vem ao nosso encontro; é preciso sair do espaço cotidiano, rotineiro, para entrar em outro espaço, amplo, provocativo, surpreendente... e deixar-nos afetar pelas coisas de Deus.

Re-descobrir o próprio lugar interior é sinal de maturidade e sabedoria de vida.

Esse lugar nada tem a ver com o êxito social, ou o reconhecimento dos outros. É um lugar interior, uma atitude de prontidão em ultrapassar todas as camadas exteriores de si mesmo e chegar à dimensão mais profunda, que nem sequer temos palavras para expressá-la. Um lugar no qual não importa nem o que os outros opinam a respeito de nós, nem sequer a ideia que fazemos de nós mesmos. Um espaço íntimo, lugar de serenidade e de intimidade, a partir do qual a Graça tem plena liberdade de atuar.

Esse lugar só se pode indicar como “o escondido”, onde aprendemos a decifrar a vida, onde temos acesso aos recursos e às riquezas mais nobres que des-velam nossa verdadeira identidade.

 

Ali, “no escondido”, é onde devemos acudir para orar, para tornar possível a emergência do “Deus escondi-do” em nós e nas transformações de nossa vida. Um lugar onde não contam os reflexos e as imagens, mas a realidade primeira, a que fica desvelada a partir do coração, o nosso interior, o centro vital que somos e a partir do qual nos nutrimos e vivemos.

“Entrar em casa” expressa bem uma atitude de movimento de fora para dentro, da rua onde transitamos indiferentes para o lugar onde vivemos a “mística do encontro”. Além disso, “entrar no quarto” indica um sinal especial de intimidade recolhida: é ali, onde é preciso fechar a porta e esperar pacientemente “Aquele que mora no escondido”.

Trata-se de fazer a experiência de entrar no “escondido”, na gruta do Horeb, na fenda das rochas do Sinai, no interior da tenda do deserto, no coração e centro da vida... Ali é onde uma visão nova e diferente da vida é possível: a d’Aquele que vê no “escondido” e sabe derramar graças como uma medida sacudida e ampla: seu próprio Coração.

Precisamos re-avivar nossas pobres práticas quaresmais: fazer do coração um espaço humilde e rico; de nossas mãos, carícia e ternura; de nossos pés, desejo de proximidade e comunhão, para ungir com o azeite e vinho de nossa fragilidade tantos feridos e quebrados que se encontram às margens de nossos caminhos.

 

Texto bíblicoMt 6,1-6.16-18

 

Na oração: Orar é um exercício de ida ao centro, en-

                    contrar-se consigo mesmo na essência do ser, e ali encontrar-se com Aquele que é o mais íntimo: o próprio Deus.

Portanto, orar nunca foi e nem será obrigação, regra, norma, lei, mandamento, ou outra coisa qualquer que uma pessoa se sinta forçada a fazer. No dizer de S. Inácio: “orar é uma conversação entre amigos”. Orar é um exercício das pessoas que querem se encontrar, centralizar-se, para sempre agir a partir do seu centro, e não a partir de outros centros (opinião alheia, costumes, moda, meios de comunicação, conveniência, tradição, etc.). Orar é um exercício disponível àqueles que querem ter vida a partir de sua própria vida, junto com o Autor da vida, levando vida a todos.

- Qual é do seu estado de ânimo ao iniciar o percurso quaresmal?  

 


 

QUARESMA: tempo precioso para afinar nosso interior

“Não só de pão vive o homem” (Lc 4,4)

 

Antes da Quaresma, carnaval...; o carnaval é o tempo dos disfarces, o tempo das máscaras, quando ninguém quer mostrar seu próprio rosto e cada um se esconde detrás de seu próprio disfarce. Às vezes, temos a impressão que é preciso sempre estar usando máscaras, trocando-as de acordo com as circunstâncias.

Somos os mesmos, mas disfarçados. Somos os mesmos, mas dissimulando nossa identidade e revestindo-nos de qualquer outro personagem. Debaixo da aparente segurança, pulsa um rosto temeroso; detrás de uma face risonha há uma expressão de dor.

Agora, quando se apagam os ecos do carnaval, é tempo de tirar as “maquiagens”. Começamos o tempo quaresmal, o tempo do “des-velamento” (tirar o véu, ou a máscara), tempo privilegiado para deixar transparecer nossa verdade mais profunda e nossa real identidade.

 

Mas, o mais curioso é que a Quaresma começa também com um “disfarce”. Com as tentações, percebemos que elas não são outra coisa senão o disfarce do “demônio” para enganar e enredar Jesus. Se examinarmos bem qualquer das três tentações, nos daremos conta de que são “disfarces do mal” “sob a aparência de bem” (S. Inácio).

A tentação tem muito de sedutora e maliciosa; aí está precisamente sua força de atração. A tentação é uma sedução que atrai irresistivelmente nossa liberdade, exerce uma fascinação que nos deslumbra.

Acaso alguém quer o mal pelo mal? Acaso alguém quer afastar-se de Deus livre, voluntária e consciente-mente? A mentira reveste-se de algo que a esconda e a apresente como verdade.

A tentação necessita revestir-se do bem para que nós a aceitemos livremente.

A tentação nunca apresenta o rosto descoberto. Sempre aparece escondida e disfarçada. E assim foram também as tentações de Jesus. Tratava-se de demonstrar que realmente era Filho de Deus; ou de fazer-se poderoso e dono do mundo; ou simplesmente demonstrar que nada lhe iria acontecer e que ganharia a admiração de todo o mundo se pulasse da parte mais alta do templo.

Mas, onde está o verdadeiro “disfarce” das tentações de Jesus? Está justamente no fato de procurar justificá-las com a Palavra de Deus. Portanto, utilizar Deus como uma justificação e legitimação para alimentar o ego, para fazer-se o centro, para dominar...  E esta é a pior tentação e o pior dos disfarces.

 

Os evangelhos sinóticos (Mc, Mt e Lc) colocam o relato das tentações de Jesus no início de sua atividade pública. Talvez, com isso, eles estão nos dizendo que, antes de começar o percurso quaresmal, é necessário confrontar-nos com nossos próprios “demônios interiores”.

Sem ter passado por aí, o mais provável é que comecemos a ver “demônios” nos outros, ou que estejamos à mercê dessas forças que permanecem ocultas, mas bem ativas, em nós, conduzindo-nos aonde não queríamos ir.

Os “demônios” dos quais o relato evangélico deste domingo fala são três e que caracterizam bem o nosso ego: o ter, o poder e a vaidade (aparentar). É neles onde o ego se entrincheira e onde se apega para sentir-se que é “algo”. Bens materiais e consumismo, poder e influência, imagem e prestígio: eis aí os interesses do ego. Então, é quando o instinto de viver se transforma em obsessão pela saúde e pela vida longa;

o instinto de ter se transforma em cobiça de acumular sempre mais; o instinto de valer, em obsessão pelo prestígio e pelo poder. É a deriva do coração humano, a inversão de sua vocação mais profunda.

Se nos damos conta, o que se busca detrás deles, é uma mesma coisa: segurança. Precisamente por isso, a maneira de “desmascarar” esses “demônios” é reconhecer suas artimanhas e descobrir a falsidade de suas promessas.

 

O relato das tentações de Jesus não é “história”, mas teologia; não é crônica de um acontecimento, mas as tentações são descaradamente reais. Empregando símbolos conhecidos por todos, os evangelhos nos querem fazer ver uma verdade espiritual fundamental: a vida humana se apresenta sempre situada entre dois movimentos internos opostos: um, de saída de si, de vida expansiva, aberta a todos, comprometida...; outro, de retração, de medo, de fechamento no próprio “ego”. Trata-se do “joio” e do “trigo”, presente nas raízes de nosso ser. A questão fundamental é esta: “qual dos dois dinamismos alimentamos em nossa vida?”

Que as tentações sejam três, não é casual. Trata-se de uma síntese perfeita de todas as relações que o ser humano pode desenvolver. A tentação consiste em entrar numa relação equivocada conosco mesmo, com os outros e com Deus. Uma autêntica relação humana com os outros depende, queiramos ou não, de uma adequada relação conosco mesmo e com Deus.

 

1ª. tentação: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. A tentação permanente é deixar-nos levar pelos instintos, pelos apetites, pelas “afeições desordenadas”. Ou seja, fazer em todo momento o que o ego exige. É negar-nos continuar crescendo e superando a nós mesmos, porque isso exige descentrar-nos, sair do círculo fechado do “eu autossuficiente”.

Nossa grande tentação hoje é converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte de nossa vida à satisfação de nossas necessidades, viver obcecados por um bem-estar sempre maior ou fazer do consumismo indiscriminado e sem limites o ideal quase único de nossas vidas.

Estamos vendo claramente que uma sociedade que arrasta às pessoas para o consumismo sem limites e para a auto-satisfação não faz outra coisa senão gerar o vazio e o sem-sentido nas pessoas e alimentar o egoísmo, a falta de solidariedade e a irresponsabilidade na convivência.

 

2ª. tentação: “Se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”. O poder, em qualquer de suas expressões, é a idolatria suprema. O poder traz sempre consigo a opressão, nunca é mediação de libertação. Adorar a Deus não significa incensar um “deus exterior”. Trata-se de descobrir o que de Deus há em nós e viver em sintonia com Ele. Nosso autêntico ser não está no ego aparente, mas no “eu profundo”. Se descobrimos nosso ser essencial, não nos importaremos esvaziar nosso falso eu e, em vez de buscar o domínio sobre o outros, buscaremos o serviço para com todos.

 

3ª. tentação: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo”! Realizar um ato verdadeiramente espetacular, para que todos vejam o quão grande somos. Todos nos exaltarão e nossa soberba chegará ao limite.

A resposta é esta: que deixemos Deus ser Deus. Aceitemos nossa condição de criaturas e, a partir disso, alcancemos a verdadeira plenitude.

 

Que esse tempo quaresmal possa ser um tempo precioso para “afi-nar” nosso interior: sermos mais sensíveis à realidade que nos cerca, buscar nela as pegadas de Deus que nos conduzem ao encontro, e deixar-nos alcançar pela graça de um Pai que deseja para todos nós a felicidade e a alegria.

 

Texto bíblico:  Lc 4,1-13

 

Na oração: Para chegar a teu verdadeiro ser, é preciso atravessar teu

                    próprio deserto. Liberta-te de tudo que acreditas ser, para chegar ao que és de verdade. Somente em teu próprio deserto se desvela-rá o sentido verdadeiro de tua vida. Isso sim, impulsionado pelo Espírito.

Sozinho e no deserto, tens que tomar a decisão definitiva.

A “terra prometida” já está aí, do outro lado de teu falso eu. Mantém-te em silêncio, até que se derrube o muro que te separa de ti mesmo: o muro do poder, da vaidade, da riqueza... Deixa que a luz, que já está em teu interior, te invada por completo. Serás feliz e farás felizes àqueles que vivem junto de ti.

- Como sermos fiéis seguidores(as) de Jesus se não somos conscientes das tentações mais perigosas que nos podem desviar hoje de seu projeto e estilo de vida? Desmascará-las e “dar nomes”.