Retiro Mensal

RETIRO MENSAL

23º Domingo do Tempo Comum ano C
08 de setembro de 2019

 

 

Leituras:Sabedoria 9,13-18; Salmo 90(89); Filêmon 9b-10.12-17; Lucas 14,25-33.

                      

1. Aprofundando os textos bíblicos:

A caminho de Jerusalém (9,51), o Mestre volta-se para a numerosa multidão que o acompanhava e propõe as exigências para ser discípulo/a. O sentido condicional das frases: se não odiar; carregar; renunciar (14, 26.27.33) indica que o discipulado requer opção radical à Boa Nova do Reino de Deus anunciada por Jesus (4,43). A adesão a Cristo torna tudo o mais relativo, com a disposição para carregar a cruz em meio ao sofrimento por causa da fidelidade a Deus e ao Evangelho. A comunhão com o Crucificado proporciona abertura confiante ao Pai e solidariedade com os irmãos. Jesus convida a deixar tudo (14,33; 5, 11.28; 12,33; 18, 24-30) o que impede a realização do Reino de Deus e sua justiça. O exemplo do construtor de uma torre, que senta antes de empreender sua obra, ilustra a seriedade do compromisso de construir a vida em Jesus e sua mensagem libertadora.

Refletir sobre os meios para levar a termo a obra é uma atitude enfatizada também pelo rei prudente, que negocia a paz antes de enfrentar uma guerra com um adversário mais poderoso.  A disponibilidade e as decisões tomadas a cada momento tornam possível viver de maneira evangélica, assumindo os desafios na luta a favor do Reino. A instrução de Jesus termina com a metáfora do sal (14,34-35), a fim de exortar os discípulos a não perder a força inovadora original que dá sabor à missão.

A obra de Lucas, composta à luz do mistério pascal de Jesus, anima a caminhada de fé pela escuta da Palavra e pela partilha do Pão (24,13-35). Na primeira leitura, a Sabedoria é uma exigência para conhecer e seguir o projeto de Deus. O salmista suplica confiante um coração sábio, para acolher a bondade do Senhor que confirma a obra de nossasmãos. Paulo, na carta a Filêmon, envia Onésimo de volta, agora gerado na fé pelo batismo, que transforma as relações de escravização em fraternidade.

O Livro da Sabedoria é um texto de carácter sapiencial, com oobjetivode transmitir a “sabedoria”, identificada com a arte de bem viver, de ter êxito e de ser feliz. O autor apresenta-se como um “rei”, apaixonado pela “sabedoria” e que construiu um templo na “montanha santa” e um altar na “cidade da habitação de Deus” (Sab 9,6-8). Tudo indica, pois, que o autor quer apresentar-se como sendo o rei Salomão; mas trata-se de um livro escrito na primeira metade do séc. I a.C. (Salomão é da primeira metade do séc. X a.C.) por um judeu piedoso, provavelmente pertencente à comunidade judaica de Alexandria. O objetivo do autor é duplo: por um lado, dirige-se aos seus compatriotas, mergulhados no paganismo, na idolatria e na imoralidade, e mostra-lhes as vantagens de perseverar na fé e de viver na justiça; por outro lado, dirige-se aos pagãos e apresenta-lhes a superioridade da fé e dos valores israelitas. O texto que nos é apresentado é o final da segunda parte do livro (cf. Sab 6,1-9,18). Aí, o autor coloca na boca de um rei (Salomão, embora o nome nunca seja referido explicitamente) o elogio da “sabedoria”.

A Carta a Filêmon é a mais breve e pessoal das cartas de Paulo. É endereçada a um tal Filêmon, aparentemente um membro destacado da Igreja de Colossos.A partir dos dados da carta, podemos reconstruir as circunstâncias em que o texto aparece. Onésimo, escravo de Filêmon, fugiu de casa do seu senhor. Encontrou Paulo, ligou-se a ele e tornou-se cristão. Paulo, que nessa altura estava na prisão (em Éfeso? Em Roma?), fê-lo seu colaborador e manteve-o junto de si. Paulo envia Onésimo a Filêmon. Onésimo leva consigo uma carta, em que Paulo explica a Filêmon a situação e intercede pelo escravo fugitivo. Com extrema delicadeza, Paulo insinua a Filêmon que, sendo possível, lhe devolva Onésimo, já que este lhe vem sendo de grande utilidade; no entanto, Paulo deixa a decisão nas mãos de Filêmon. Um texto belíssimo, carregado de sentimentos, “verdadeira obra-prima de tacto e de coração”.

Seguir os passos de Jesus, na obediência ao Pai e no amor aos últimos, exige discernimento contínuo para que a evangelização não seja uma “torre inacabada”.  Frente a uma sociedade onde a escravidão vigora, o que não podemos é desistir do seguimento. A Memória daquele que se despojou de tudo, até da sua própria vida, por amor, deve nos animar a não ter medo do sofrimento quando o que está em jogo é a causa do reino.

 

DECISÕES VITAIS

“Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33)

 

O verbo que marca o iníciodo relato evangélico deste domingonão indica seguimento, mas acompanhamento. Seu significado: “viajar com”, “caminhar junto a”, está longe de manifestar adesão ao projeto ou identificação com a pessoa com quem se compartilha a caminhada.

As grandes multidões, às quais o relato de Lucas faz referência, vão se somando, pelo caminho, à marcha dos seguidores de Jesus. Agregam-se ao passo do Galileu, mas não se comprometem com Ele e com a causa do Reino. Por isso, Jesus provoca uma brusca parada e se dirige à multidão.

Suas palavras interpelam cada um dos seus integrantes e pretendem fixar as linhas que distinguem acompanhantes de seguidores. Não basta simplesmente acompanhar Jesus; isso não leva a lugar nenhum.

Chegou o momento de tomar decisões. Segui-lo, aderindo-se a seu projeto, exige dar-lhe completa prioridade. Jesus é bem claro e não fica na superfície; não quer entusiasmos que sejam fogos artificiais.

Ninguém deve sentir-se enganado. Ficam claras as condições que marcam a fronteira entre “ser massa” e formar parte do grupo daqueles (as) que se identificam com Jesus. As três condições expostas (vv. 26-27; v. 23) não deixam lugar a dúvidas e terminam do mesmo modo: “não pode ser meu discípulo”.

Só no contexto do seguimento de Jesus, podemos entender as exigências que propõe aos que o seguem (preferir-lhe à família, carregar a cruz, renúncia de tudo).

Frente à multidão que “só acompanha”, Jesus apresentadois casos em forma de duas pequenas parábolas. Embora muito diferentes, apontam para uma mesma direção. Os protagonistas de ambos exemplos se encontram frente uma ação a realizar. Precisam tomar uma decisão. No primeiro caso, trata-se de construir uma torre; qualquer um dos integrantes da multidão pode ser o ator principal: “qual de vós querendo construir umatorre...” É preciso refletir sobre si mesmo e fazer cálculos das possibilidades que se tem em mãos. No segundo caso, fala-se de uma terceira pessoa, um rei que vai enfrentar uma batalha: “qual é o rei que ao sair para guerrearcom outro...?Trata-se, nesse caso, de atuar com prudência, prevendo acontecimentos hostis que possam surgir a partir de fora.

No primeiro, ressalta-se a atividade construtiva e pacífica; no segundo, aparece um risco: o movimento destrutivo motivado por uma guerra que surge repentinamente. Ambas situações parecem concordar com as duas condições antes expostas. Uma, exige dar um passo adiante, seguindo o que fora projetado. Outra, pede uma parada estratégica para medir a possibilidade de enfrentar o risco que pressiona. Trata-se de pensar; pensar antes de fazer; e fazer requer discernimento.

Temos a impressão que o tema central do evangelho deste domingo é tão forte que se torna quase impossível abordá-lo de frente. Por isso, o melhor é pôr em prática o conselho que recebemos dele: “sentar-nos para pensar”. Temos a sensação de que o seguimento de Jesus implica sempre o dinamismo de mover-nos, deslocar-nos e caminhar; mas, às vezes, o mais aconselhável seja isso: parar um pouco e sentar-nos.

A advertência de Jesus revela grande atualidade nestes momentos críticos e decisões que ajudam a dar uma feição original ao seu seguimento. Jesus chama, antes de mais nada, a um discernimento maduro: os dois protagonistas das parábolas “se sentam” para refletir, discernir... Seria uma grave irresponsabilidade viver hoje como discípulos (as) de Jesus que não sabem o que querem, nem para onde pretender ir, nem com que meios poderão contar.

Não se pode dar o passo sem medir as consequências. Requer-se “sentar e pensar” com calma. Porque a condição para formar parte do reinado de Deus implica a ruptura com os impulsos do ego: auto-centramento, apegos, busca dos próprios interesses, busca de projeção e poder...

Os apelos de Jesus são absolutos e constantes. Se estamos apegados ao que temos, jamais seremos capazes de “fazer estrada com Ele” e participar da preciosa vida que Ele nos oferece. Para seguir a Jesus, devemos esvaziar-nos; para entrar na posse “do todo” temos de renunciar ao “nosso todo”. Os “apegos” imobilizam-nos, congelam-nos...., impedem-nos crescer. “Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”.

Trata-se de uma atitude, uma postura, uma entrega. E a palavra é “tudo”. Um discípulo, com um “pé atrás”, não pode ser discípulo. Não servem as entregas pela metade. Jesus não pode se contentar com “amor a prestações”, com retalhos de vida.

A entrega parcial não é entrega. O “apego” a algo ou alguém, que esvazia o seguimento, anula o resto da entrega e torna impossível que nossa relação com Jesus cresça, se desenvolva e plenifique nossa vida.

Todos temos a experiência de que viver é estar continuamente tomando decisões. Desde o momento em que levantamos até à hora de deitar, estamos decidindo, algumas vezes sobre questões simples, outras vezes, sobre assuntos de maior envergadura. Sabemos que nossas decisões vão modelando nossa vida e orientando, de uma maneira ou outra, para um fim. Qual é esse fim?

Como seguidores (as) de Jesus, somos seres em contínuo discernimento: como “cristificar” (prolongar o modo de ser e agir de Jesus) nossas opções, ações, valores, compromissos...?

Sabemos que é no decidir que a pessoase tornapessoa, que o indivíduo se tornasujeito.

São “significativas” as decisões que imprimem uma direção à sua vida, que a constroem dia após dia; decisões carregadas de vida, abertas à vida, comprometidas com a vida...

São as decisões que fazem a pessoa; formam sua personalidade, definem seu caráter e integram sua vida. A base da pessoa são suas decisões, suas determinações, fazendo comque sua vida tenha a marca da criatividade e da ousadia: construir o caminho de vida, rejeitar alternativas que a atrofiam e avançar na rota, em direção a um fim pleno de sentido.

Decidir é viver, decidir é definir-se; por isso, ao entender e refinar suas próprias maneiras de decidir, a pessoa está entendendo melhor e refinando mais sua vida.

Em outras palavras: “somos o que são as nossasdecisões”;e a decisão pelo seguimento de Jesus é aquela que mais nos humaniza e potencializa todo nosso ser; afinal, somos chamados para “seguir uma Pessoa”, aquela que foi “humana por excelência”.  Por isso, precisamos conhecer detalhadamente quais são e como as tomamos; queremos saber se nossas decisões são realmente nossas ou se são imitação daquilo que os outros fazem, ou submissão ao que os outros nos dizem para fazer.

A coragem de decidir com firmeza e clareza é o que distingue o (a) seguidor (a) de Jesus como tal, e lhe dá sua dignidade e personalidade. Não há melhor escola humanizadora do que saber decidir.

Essa é a grande contribuição que a tomada de decisões dá à nossa vida: ativar ao máximo nossos recursos, fazer valer tudo o que trazemos dentro de nós, dar vida a todo o nosso ser, que é feito para conhecer, querer e decidir. Se evitamos decisões ou fugimos de responsabilidades, condenamo-nos a viver num canto, encolhido e prostrado. Para desenvolver ao máximo nossas potencialidades, temos de enfrentardilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto nos faz ter acesso à vida plena, mobilizar nossas forças, encontrar a nós mesmos, encontrando-nos com aquele que nos inspira.

 

Texto bíblico:  Lc 14,25-33

Na oração:

No encontro com Deus deixar aflorar aquilo queé a base, o sólido, o fundamento, que dá sentido à sua vida. Sobre quê valores, critérios, opções... você vai construir sua vida?

 

A Bíblia fala do equilíbrio entre o olho, ouvido, coração e mão, quando se refere à decisão:

- olho: atenção (ler os sinais, interiores e exteriores);

- ouvido: escutar-auscultar: captar vozes do coração;

- coração: é a decisão com afeto;

- mão: é a ação (realizar na prática, a decisão).

 

            * Fazer memória das suas decisões diárias: elas são “cristificadas” ou tem a marca do “ego inflado”?

               Elas são oblativas, abertas, descentradas..., ou centradas no próprio interesse?