Retiro Mensal

14º Domingo do Tempo Comum – 8 de Julho

Ez 2,2-5;Sl 122,1-2a.2bcd.3-4; 2Cor 12,7-10;Mc 6,1-6

O profeta encontra a indiferença, a desconfiança e a rejeição, mas a sua missão não depende da audiência, mas sim da fidelidade à palavra d’ Aquele que o enviou. Ezequiel é mandado a um povo rebelde e deverá levar a cabo a sua missão “quer escutem quer não”. Só a sua presença e a sua palavra incómoda serão sinal da solicitude de Deus que enviou um profeta ao seu povo (1.ª leitura). Jesus, na sua pátria, conhece a incredulidade dos seus concidadãos e formula o dito: “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa” (evangelho).

O evangelho deixa entrever a desilusão (“Estava admirado com a falta de fé daquela gente”) que Jesus deve ter experimentado ao voltar ao ambiente que o tinha visto crescer: o conhecimento à maneira humana, “segundo a carne” (2Cor 5,16), torna-se fechamento nos encontros com o enviado de Deus. Para encontrar Jesus, ou deixar-se encontrar, é necessário o salto da fé, o risco da fé. Decerto Jesus admira-se porque este conhecimento é totalmente não dialógico: não pergunta nada, não pede, não fala, mas julga e recusa a priori, e, na medida em que torna Jesus objecto de escândalo, impede de aceder ao extraordinário que Deus pode realizar nele.

O conhecimento do outro não pode ser fossilizado e engessado: a identidade de uma pessoa está em devir, e conhecer significa estar aberto ao novum, à surpresa. Sobretudo quando se trata de conhecer esse mistério inexaurível que é uma pessoa. Nos encontros de Jesus o conhecimento mesmo indiscutível das suas origens conduz os seus concidadãos a não apreenderem a sua identidade profunda: eles adaptaram-no a eles próprios, reduziram-no à sua medida e à sua estatura. Mas o outro é sempre maior do que o conhecimento que dele tenhamos. O conhecimento que os habitantes de Nazaré têm de Jesus torna-se obstáculo, armadilha, “escândalo” que impede a fecundidade do encontro: “parecia-lhes escandaloso”.

Este escândalo, pelo qual Jesus mais parece um sábio desconhecido (Mc 6,2), um profeta desprezado (Mc 6,5) e um médico reduzido à impotência (Mc 6,5), não respeita apenas aos contemporâneos de Jesus, mas encontra uma versão  renovada no conhecimento de Jesus hoje. E em profundidade revela a dificuldade de acreditar radicalmente e autenticamente no Evangelho, porque só confessando Jesus como Senhor se pode encontrá-lo também como médico, sábio e profeta.

Médico reduzido à impotência. Se a fé é reduzida a instrumento de satisfação da necessidade humana, ela pode conhecer uma deriva tecnicista e taumatúrgica que a verga à medida do destinatário, o qual não realiza mais o movimento salvífico de abertura ao mistério de Deus em Cristo. Então, a cura deixa de ser sinal de uma salvação escatológica, mas a salvação torna-se metáfora de cura, sendo esta a única coisa tida como importante. É a fé reduzida a fármaco, a psicoterapia, ou mesmo a magia.

Profeta desprezado. A palavra profética é desprezada quando é utilizada por uma ideologia, submetida a interesses de uma parte. Se Jesus fala de desprezo do profeta na sua pátria, hoje a palavra profética é desprezada e privada da sua valência escatológica se não se sujeita à pátria, se não aceita servir de unificador nacional, se não se faz fornecedora de valores éticos. Se não de dobra servilmente a uma palavra penúltima.

Sábio desconhecido. Ou a redução do saber do outro ao meu saber. A intolerância para com uma sabedoria diferente é a intolerância para com a legítima e necessária pluralidade de sabedorias, de hermenêuticas do real, de sentidos procurados e conferidos ao viver. A sabedoria que é Jesus o Senhor não se identifica com uma filosofia ou cultura, mas é realidade transcultural que orienta o humano.

Tal como Jesus foi reduzido à impotência daqueles que afirmavam conhecê-lo melhor, assim a fé pode hoje ser tornada insignificante por aqueles mesmos que pretendem fazer-se seus paladinos e defensores, mas na realidade a reduzem às suas próprias visões do mundo e não aceitam deixar-se pôr em causa.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano B de Luciano Manicardi, monge de Bose