Retiro Mensal

Retiro mensal pddm, Advento de 2020

Marcos 1,1-8  Is 40,1-5.9-11; Salmo 84(85); 2Pedro 3,8-14.

Comentário de Luciano Manicardi

Se a noite, a noite do retorno do dono da casa, foi o ambiente em que o primeiro domingo do Advento nos colocou, como lugar de espera, o deserto é o lugar para onde somos conduzidas/os neste segundo domingo. Se o anúncio do Senhor que vem em sua glória foi o coração do primeiro domingo, no segundo, o centro é o anúncio daquele que vem agora, no presente da história. Se a vigilância foi a atitude necessária no primeiro domingo, a preparação é o que é exigido no segundo. "Prepare o caminho do Senhor", diz João, citando as escrituras. Mas não se trata de algo externo, o que está em jogo, é preparar-se. Preparar o Caminho do Senhor significa preparar-se diante do Senhor que vem, significa não "fazer alguma coisa", mas fazer algo de si mesmo. No texto do Evangelho de hoje (Mc 1,1-8) a preparação é o que João prega, mas acima de tudo é o que ele vive e encarna. Ele é o caminho preparado para o Senhor.

Costumamos chamar essa preparação de "conversão". A conversão designa um retorno, uma volta, uma inversão de caminho, uma mudança de direção no espaço. Metánoia, por outro lado, termo usado no v. 4 de Mc 1, indica uma transformação interior que ocorre ao longo do tempo, uma escolha que inaugura uma nova forma duradoura de pensar, julgar, querer e agir.

O evangelho tem um começo: "Início do Evangelho de Jesus, Cristo, Filho de Deus". "Início do evangelho... como está escrito no profeta Isaías": o vínculo de unidade da história da salvação entre o profeta Isaías, João Batista e Jesus é afirmado, entre a página bíblica e a carne de João, carne que dá voz à palavra bíblica. João no deserto grita para preparar o caminho do Senhor, retomando o apelo profético de Isaías muitos séculos antes. O evangelho começa com o anúncio profético, começa com o Primeiro Testamento. Mas começa mesmo  com um homem que, obedecendo às escrituras, precede o Senhor. O início do evangelho é também a história de um homem que se sente pessoalmente interpelado pela palavra de Deus e a ela responde existencialmente. Nenhuma data, nenhuma referência histórica ao tempo em que os fatos ocorrem como muitas vezes acontece nas histórias da vocação dos profetas. O próprio João é o evento despertado pela palavra das Escrituras. "João apareceu" (literalmente diz v. 4). Ou seja, o início do evangelho é um homem que ouve as escrituras, as obedece e muda sua vida. O Evangelho começa quando um ser humano mostra a capacidade de iniciar algo em sua vida em obediência à palavra de Deus, quando uma pessoa se mostra tão livre que a Palavra reina nas condições reais de sua vida. Mesmo quando essas condições são humilhantes ou dolorosas. É um começo que dura uma vida inteira, que acontece de início em início, de recomeço em recomeço.  

A palavra bíblica mencionada no início, uma combinação de Mal 3,1 e Ex 23,20, afirma uma experiência anterior. "Eis que estou enviando meu mensageiro diante de vocês" (Mc 1,2). Quem vai preparar o caminho é aquele que caminha à sua frente, que abre diante dele a estrada. O texto diz "diante do seu rosto", diante de seus olhos. A vida cristã é iniciática, e a iniciação não é dada por uma estrutura esotérica, auto-referencial, mas é uma experiência de caminho que alguém faz primeiro, diante de outros. Jesus também aprende o seu caminho, o caminho que ele mesmo seguirá, graças a outro que caminha diante dele, o Precursor, como João é chamado na tradição. Aquele que vem atrás pode olhar e ouvir aquele que vai na frente e aprender com ele. Na verdade, o precursor não é apenas aquele que caminha diante dele, mas também aquele que grita, aquele que fala e anuncia e que deve ser ouvido, assim como ele pode ser olhado e visto por aqueles que o seguem. A tradição é, antes de tudo, esta comunhão visível de vidas.

João ilumina o caminho que aqueles que o seguem devem tomar. É a vida de uma pessoa que inicia outras na vida. Mas a experiência anterior de João com Jesus é importante. Mas nos ensina a viver a não se valer desta experiência anterior com superioridade ou privilégio, mas como um serviço.

O evangelho enfatiza que o deserto pode ser um lugar de renascimento, de novo começo. O deserto, é um lugar de morte, mas se transforma em lugar de vida, no exato momento em que alguém decide habitá-lo. Ele se torna um lar acolhedor para as multidões. "Toda a região da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém saíram em direção a ele" (M. 1:5). Vivendo no deserto, João faz o próprio deserto viver. Falar e gritar no deserto faz do deserto uma corda sonora que ecoa nas cidades e é ouvida por muitos. Falando no deserto João também dá voz ao deserto e o faz falar. No deserto longe do barulho e do poder da cidade, a palavra pode aumentar o seu potencial profético. E se João prepara o caminho daquele que é a Palavra, ele faz isso com um exercício da palavra que sabe dizer o essencial, porque o próprio João vive o essencial, ele sabe como perguntar com força e com autoridade o que é vital porque ele próprio tem autoridade. João vive o que diz e o que pede. João é um ascético da palavra.

Além disso, João no deserto prova que uma vida alternativa é possível,  uma vida centrada no essencial, livre do supérfluo. Uma vida que sabe escolher o que realmente importa. A sobriedade dos alimentos e das vestes  (Mc 1,6) fazem parte dessa essencialidade. A ascética de João não é uma busca de jejum ou outras práticas ascéticas, mas uma busca constante do essencial. João então prepara o ministério daquele que vem atrás. Declara que é indigno até mesmo para fazer o gesto do servo em direção ao mestre. João é um homem humilde. Nele ocorreu o trabalho de limpar o caminho e baixar as colinas do orgulho (Cf. Is 40,3-4) de modo que agora através dele e graças a ele, a glória do Senhor se tornou visível.

Mas tudo acontece no deserto. No lugar da solidão. No lugar onde é insano gritar e inapropriado anunciar e pregar. João, em sua loucura, nos lembra que o essencial da vida humana e cristã é a paixão que nos move, o fogo que abrasa o nosso desejo. O deserto da solidão permite que você se veja diante do espelho, para ver sua própria realidade, os fantasmas do seu coração, os demônios de sua intimidade, as ruínas de sua vida.. E quando essa visão das profundezas do coração é domada pela escuta da palavra de Deus que põe ordem e harmonia no caos, então o coração humano entra em liberdade e lucidez. O efeito da solidão é ser capaz de ouvir Deus, falar com o coração. João também nos ensina que a solidão é uma escolha não uma imposição. Essa solidão é um estado de espírito, um elemento da vida espiritual, fundamental para a pacificação e unificação do coração. Ousar-se, é também ousar a solidão. João conhecia a solidão daquele que é livre demais para ser tolerado e assim precedeu Jesus em morte violenta. Ele foi feito o caminho do Senhor na vida como na morte.