Retiro Mensal

Retiro - julho de 2020 - XIV domingo do Tempo Comum

Domingo do reino revelado aos pequenos

O Retiro Mensal é uma proposta de oração usando o método da Leitura Orante de Bíblia para rezar com os textos bíblicos propostos para a liturgia do primeiro domingo de cada mês. Todas as comunidades das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre realizam este retiro nesta data ou num momento oportuno para toda a comunidade. Reze conosco!

1. Ambiente: Antes de começar, prepara-se o ambiente: uma mesa com toalha, o Lecionário, uma vela ... 

2. Refrão: Deus é amor, arrisquemos viver por amor, Deus é amor, Ele afasta o medo.

3. Invocar o Espírito Santo

4. Leitura dos textos Bíblicos

Evangelho:  Mt 11, 25-30: Ao voltarem os discípulos da missão a que foram enviados, partilham com Jesus o que lhes aconteceu. Jesus proclama a oração e faz o apelo que vamos escutar e acolher.

 

1ª leitura: Zac. 9, 9-10: Escutemos como o profeta Zacarias, quatro séculos antes de Cristo, descreve a pessoa e o agir do messias.

 

Salmo: 145 (144): Com este salmo de louvor, bendigamos a Deus que vem a nós como pobre, sem armas de guerra. Que ele nos dê a graça de sempre buscarmos a paz.

 

2ª leitura: Rom 8, 9. 11-13: Escutemos o que Paulo, escrevendo aos Romanos, nos conta sobre o papel do Espírito Santo na vida da gente.

 

5. Introdução:

Estamos diante de uma oração pessoal de Jesus ao Pai. Dele agradece a Deus por ter revelado seus segredos aos pequeninos, pescadores, marginalizados que o acolheram e o seguiram pela Galiléia. Revela que a salvação é dom gratuito de Deus a todos, e não é monopólio de elites intelectuais. Jesus chama a Deus de Pai, vive com ele uma profunda intimidade e nos chama a entrar nesta relação filial.

Esta palavra do evangelho é um convite a retomarmos a experiência amorosa da relação filial de Jesus com o Pai e a traduzi-la numa prática de não-violência. À oposição ao reino acontecida nas cidades que o rejeitaram ou no confronto com os fariseus, Jesus reage com uma mansidão que, longe de submissão ou resignação, manifesta-se como recusa em aceitar a violência como forma de resolver os conflitos e modo de estruturar a sociedade. O jugo suave de Jesus não significa alienação ou descompromisso, mas sobretudo empenho com a paz, tal como anunciado na primeira leitura: “Destruirá as armas da guerra e anunciará a paz”.

Ao convite que o Senhor nos faz - “Venham a mim vocês que estão cansados e fatigados” -, nós respondemos com nossa participação constante e assídua na liturgia. Os mistérios do reino e da liturgia são dados àqueles que têm o coração de pobre, que são simples e pequeninos e que, por isso, compreendem a profundidade do jogo da liturgia, sua linguagem orante, de silêncio e de sentido.         

 

6. Comentários dos textos bíblicos

1ª leitura: Zac. 9, 9-10 - O Livro de Zacarias é um livro profético com catorze capítulos. Atualmente, os estudiosos da Bíblia são unânimes em reconhecer que entre os oito primeiros capítulos e os restantes há uma diferença tão grande em contextos, estilo, vocabulário e temática, que devemos falar de dois livros em um e de dois autores diversos. Dado que não conhecemos o nome do autor do segundo livro (capítulos 9-14), convencionou-se chamar-lhe o "Deutero-Zacarias". É ao "Deutero-Zacarias" que pertence este texto que hoje nos é proposto. Em que época foram escritos esses textos atribuídos ao Deutero-Zacarias? As opiniões são divergentes; no entanto, a maioria dos comentadores coloca estes oráculos no final do séc. IV ou princípios do séc. III a.C. O ambiente é claramente pós-exílico. O contexto parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedónia, quando o Povo de Deus estava integrado no império helénico. O livro do "segundo Zacarias" está marcado por um forte acento messiânico. Refere-se, com frequência, à figura do Messias, apresentado como rei, como pastor e como servo do Senhor. Na primeira parte (cf. Zac 9,1-11,7), o profeta anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu Povo, na figura do Messias; na segunda parte (cf. Zac 12,1-14,21), os oráculos descrevem a salvação e a glória futura de Jerusalém.

 

2ª leitura: Rom 8, 9. 11-13 - Continuamos a ler a Carta aos Romanos. Ela apresenta-nos um Paulo amadurecido que, depois de vários anos de incansável trabalho missionário, expõe, de forma serena, a sua reflexão sobre a salvação (numa altura em que a questão da salvação era uma questão teológica "quente": os judeu-cristãos acreditavam que, para chegar à salvação, era preciso continuar a cumprir a Lei de Moisés; e os judeu-pagãos não manifestavam nenhuma vontade de se submeter aos ritos da Lei judaica). Na perspectiva de Paulo, a salvação é um dom não merecido (porque todos vivem mergulhados no pecado - cf. Rom 1,18-3,20), que Deus oferece por pura bondade aos homens, a todos os homens (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito (cf. Rom 8,1-39). O texto que hoje nos é proposto faz parte de um capítulo em que Paulo reflete sobre a vida no Espírito. O pensamento teológico de Paulo atinge aqui um dos seus pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos (o projeto salvador de Deus em favor dos homens; a ação libertadora de Cristo, através da sua vida de doação, da sua morte e da sua ressurreição; a nova vida que faz dos crentes Homens Novos e os torna filhos de Deus) se cruzam aqui. O Espírito aparece como o elemento fundamental que dá unidade a toda esta reflexão. Ele está presente por detrás desse projeto salvador que Deus tem em favor do homem e do qual Paulo não se cansa de dar testemunho.

Evangelho:  Mt 11, 25-30 - Após o "discurso da missão" e o envio dos discípulos ao mundo para continuarem a obra libertadora de Jesus (cf. Mt 9,36-11,1), Mateus coloca no seu esquema de Evangelho uma seção sobre as reações e as atitudes que as várias pessoas e grupos tomam frente a Jesus e à sua proposta de "Reino" (cf. Mt 11,2-12,50). O nosso texto integra esta seção.
Nos versículos anteriores ao texto que nos é hoje proposto (cf. Mt 11,20-24), Jesus havia dirigido uma veemente crítica aos habitantes de algumas cidades situadas à volta do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum), porque foram testemunhas da sua proposta de salvação e mantiveram-se indiferentes. Estavam demasiado cheios de si próprios, instalados nas suas certezas, calcificados nos seus preconceitos e não aceitavam questionar-se, a fim de abrir o coração à novidade de Deus. Agora, Jesus manifesta-se convicto de que essa proposta rejeitada pelos habitantes das cidades do lago encontrará acolhimento entre os pobres e marginalizados, desiludidos com a religião "oficial" e que anseiam pela libertação que Deus tem para lhes oferecer. O nosso texto consta de três "sentenças" que, provavelmente, foram pronunciadas em ambientes diversos deste que Mateus nos apresenta. Dois desses "ditos" (cf. Mt 11,25-27) aparecem também em Lucas (cf. Lc 10,21-22) e devem provir de um documento que reuniu os "ditos" de Jesus e que tanto Mateus como Lucas utilizaram na composição dos seus evangelhos. O terceiro (cf. Mt 11,28-30) é exclusivo de Mateus e deve provir de uma fonte própria.

 

7. Partilha do fruto da oração.

8. Cantar ou rezar o salmo 145 (144)


SALMO RESPONSORIAL

Salmo 144,1-2.8-9.10-11.13cd-14 
Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!
Ou: Aleluia, Aleluia, Aleluia.


Ao meu Deus, quero exaltar-vos, ó meu Rei,*
e bendizer o vosso nome pelos séculos.
Todos os dias haverei de bendizer-vos,*
hei de louvar o vosso nome para sempre.

 

Misericórdia e piedade é o Senhor,*
ele é amor, é paciência, é compaixão.
O Senhor é muito bom para com todos,*
sua ternura abraça toda criatura.

 

Que vossas obras, ó Senhor, vos glorifiquem,*
e os vossos santos com louvores vos bendigam!
Narrem a glória e o esplendor do vosso reino*
e saibam proclamar vosso poder!

 

O Senhor é amor fiel em sua palavra,*
é santidade em toda obra que ele faz.
Ele sustenta todo aquele que vacila*
e levanta todo aquele que tombou.

 

 

9. Pai nosso

10. Oração: Ó Deus, pelo mistério da cruz e ressurreição de teu Filho, destruíste a morte e fizeste uma nova criação. Dá a nós, tuas filhas, a alegria de sermos tuas testemunhas. Concede-nos a graça de viver e trabalhar sempre pelo teu reino. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

11. Bênção.

 

UM CORAÇÃO SEM DISTÂNCIA

“...porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós” (Mt 11,29)

Inútil discutir e dar voltas: o distanciamento social veio e começou a fazer parte do nosso ritmo cotidiano; não nos resta outro remédio a não ser tomar medidas para aprender a manejá-lo e a incorporá-lo em nossa vida da maneira menos danosa possível. De fato, seus perigos são evidentes: o distanciamento físico (“que só se aproximem até um metro”), pode gerar o distanciamento social (“que não me venham com mais problemas, porque já tenho os meus”) e desembocar no distanciamento emocional (“olho ao meu redor e sinto as pessoas como uma ameaça”).

O evangelho deste domingo pode nos oferecer uma inspiração neste momento dramático que vivemos.

Jesus nos revela que toda manifestação de distanciamento (sanitário, físico, social, religioso, cultural, político...) pode ser quebrado a partir do coração. Toda proximidade com o outro começa pelo coração. Nesse sentido, encontramos uma pérola de grande valor naquilo que o evangelista Mateus nos des-vela: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”.

Ao se apresentar como referência para os seus discípulos - “aprendam de mim! ”-, Jesus frisou duas atitudes pelas quais pautava a sua vida: a mansidão e a humildade. Elas são o reflexo das bem-aventuranças que Ele sempre deixou transparecer no encontro com os outros. É do coração que brotam a mansidão e a humildade, únicos remédios que substituem a expressão do afeto e a cordialidade manifestada por via táctil (dar as mãos, abraçar...). Mesmo quando a situação impede que mãos e braços se encontrem, os corações se abraçam.

Este “tempo de confinamento” está nos fazendo tomar consciência de nossas debilidades, quebrando toda pretensão de auto-suficiência e de soberba; ao mesmo tempo, está nos fazendo experimentar que não somos donos de nossos estados de ânimo e que precisamos dedicar tempos ao descanso e à gratuidade. Vivemos em meio à cultura da produtividade, da competição, da eficiência, e isso nos deixa cansados, raivosos, angustiados e tristes, sem um motivo aparente e sem poder encontrar uma solução para isso.  Constatamos que nossa fragilidade carrega em si a necessidade de sair, de passar tempos distendidos, de reaprender a estar com os outros, de oxigenar nossa vida em meio a tantos venenos que nos asfixiam...

A humildade e a mansidão do coração nos trazem para o chão da vida e nos possibilitam viver com mais humanidade. E estas duas virtudes estão disponíveis, em abundância, no nosso interior. Basta abrir espaços para elas e o nosso cotidiano adquirirá novo sabor e calor. É suave a condição humana quando, em vez de ocultar nossa debilidade, descobrimos com assombro que é ela que nos conduz pela mão a nos aproximar calorosamente dos demais. Quando vivemos a debilidade de forma agradecida, é mais fácil perdoar que condenar, compreender que murmurar, aceitar que julgar. A debilidade humana descansa nas mãos de Deus. Talvez seja esta a aprendizagem principal de nossa vida, pois a temos saboreado internamente. Só assim poderemos oferecer, também nós, um lugar acessível de repouso para os cansaços e fragilidades dos outros.

“Descansar” não é a outra face da ação de trabalhar; é participar, ter parte, na vida mesma de Deus, onde ação e repouso coincidem numa única pulsação, num único movimento de segurança e de felicidade, de consentimento e de abandono, nessa Presença Humilde que flui dentro de nós, nos atrai e nos conduz com suavidade. O decisivo é ir ao seu encontro e deixar-nos aliviar, para aprender d’Ele a sermos mais humanos. Se vivemos só em chave de mandamentos, de doutrinas, de normas..., comeremos pão de fadigas e sentimento de culpa; se vivemos em chave de bem-aventuranças, certamente poderemos caminhar aliviados, porque o peso e a fecundidade da vida estão apoiados em Outro e não dependem só de nós. Nesse sentido, as bem-aventuranças da humildade e a mansidão são o terreno sólido sobre o qual podemos assentar nossa vida e ativar todas as potencialidades humanas que nos habitam.

“Humildade” vem de húmus, chão, barro. Ela está vinculada ao amor à verdade e a ele se submete.  Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo. Humildade é andar na verdade” (S. Teresa). “Onde está a humildade, está também a caridade” (S. Agostinho). É que a humildade leva ao amor, e todo amor verdadeiro a supõe; sem a humildade, o ego ocupa o espaço disponível, e só vê o outro como objeto ou como inimigo. A humildade nos conduz à pura gratuidade do amor desinteressado.

Por outro lado, aqueles que vivem sob o impulso da mansidão, não rejeitam nada, não exigem nada. Estão abertos às surpresas da vida, vão interiorizando as contrariedades de cada dia e ampliando um espaço no próprio interior, onde acolher a realidade e reafirmá-la; revelam um coração que cria e alimenta proximidades com todos, porque pulsa no ritmo do coração do outro, fisicamente presente ou distante.

A mansidão se assemelha a um sentimento de não-violência ativa, a “essa capacidade passiva de recepção que se encontra no fundo da estrutura da pessoa” (Edith Stein).

Mansidão não é debilidade, mas força suavizada; ela não é a atitude medíocre daqueles que se sentem anulados pela presença violenta do outro. É força que não provém da violência externa, mas de uma transformação interna. Por isso, o manso pode realizar ações impossíveis a quem é violento e sentir-se bem-aventurado e feliz, uma vez que tem esperança de conquistar o coração dos outros e se encontra entre os que herdarão a “terra prometida” do coração de Deus. A mansidão cristã, reflexo daquela de Jesus, é plena de força. Suavidade e força que recorda o modo “suave-forte” divino de agir. Trata-se daquela harmonia conquistada pelo ser humano que alcançou seu centro mais profundo e ali encontra o dom da liberdade. A mansidão é o estado interior a ser alcançado pelos corações dos homens e mulheres livres. Nessa ótica, de fato, quando perdemos a mansidão, vemos nossa liberdade diminuída. Entramos na lógica do revide e a emoção indomada preside nossas ações.

Vivemos em um mundo onde imperam a prepotência, a agressividade, a vingança, o ataque e o desafio preventivo, o amedrontamento, a extorsão e a imposição violenta como meios habituais para conseguir os fins que se pretendem. Esta mesma estratégia de morte é utilizada em diferentes ambientes, tanto civis como religiosos, políticos como econômicos, entre pessoas e entre grupos ou nações. Com isso, a vida e as relações se convertem num campo de batalha contínua, como se fosse uma manada de lobos disputando o cordeiro.

Como seguidores (as) d’Aquele que é o humilde artífice da paz, testemunhamos e profetizamos que a mansidão é o verdadeiro rosto da Igreja. Não é por acaso que muitas pessoas que lutaram em favor da justiça, pagando com a própria vida, tenham essa característica comum: a mansidão (Gandhi, Luther King, Dom Romero...). São descritos como indivíduos mansos e humildes, amáveis e de agir discreto, abertos ao diálogo e à acolhida do outro, pacientes e simples. E, exatamente por isso, dotados de uma força diferente e, sobretudo, muito eficaz. Bem-aventurados os humildes e os mansos! Graças a eles o mal, na terra, pode se transformar em bem!

Texto bíblico:  Mt 11,25-30

Na oração: De onde brotam a mansidão e a humildade? Como ativá-las e fazê-las crescer? Ninguém pode improvisá-las. A raiz última da mansidão-humildade é contemplativa. Nasce em um clima de oração, numa proximidade íntima que faz o nosso coração pulsar no mesmo movimento do Coração compassivo de Deus. Desse encontro, de coração a Coração, emergem das profundezas de nosso ser estes dinamismos mais humanos e mais divinos. A partir da fonte original, a mansidão e a humildade vão se expandindo na direção dos outros, alimentando novas relações, acolhendo o diferente, vibrando com o bem presente no outro...

- No ritmo de sua vida, o que mais se faz visível: mansidão e humildade? Ego inflado e soberba? Agradecimento assombrado ou ingratidão venenosa? Suavidade divina ou prepotência que petrifica? ..

(Reflexão do Pe. Adroaldo, sj, para este domingo)