Tempo Litúrgico

 CLICLO DO NATAL

3266 Painel do Ano Litúrgico - Apostolado Litúrgico

O ciclo do Natal inicia-se com a celebração do primeiro domingo do Advento, engloba as festas do Natal e da Epifania, estendendo-se até a festa do batismo do Senhor. Durante este período, somos convidados a reviver a manisfestação de Deus em nossa humanidade, a acolher sua irrupção em nosso cotidiano e a renovar nossa esperança em sua vinda em nosso meio. A alegria de sermos salvos nos faz cantar um canto novo diante dos prodígios que ele opera. Com o advento, iniciamos um novo ano litúrgico como um recomeço de nossa história da salvação.

Embora se atestem celebrações do nascimento do Senhor já no século II, em Belém, o ciclo do Natal, tal como conhecemos hoje, estruturou-se somente no século IV, por várias influências e em contextos. A necessidade de aprofundar teologicamente o mistério da humanidade e divindade do Senhor fez as comunidades se debruçarem mais profundamente sobre o mistério da encarnação do Verbo. A prática litúrgica da Igreja-mãe de Jerusalém, que, celebrando nos lugares sagrados, fazia a memória do começo da salvação, expandiu-se rapidamente por todas as comunidades. Finalmente, o costume pagão de celebrar, no dia 25 de dezembro, a festa do Sol Vencedor fez com que os cristãos retomassem a palavra do Evangelho: o Cristo, ele sim, é o verdadeiro sol do Oriente que nos veio visitar (cf. Lc 1,78).

A Páscoa é a festa das festas, mas o Natal a retoma de um modo que lhe é próprio. As antigas comunidades cristãs, quando começaram a celebrar o Natal, fizeram-no, ao mesmo tempo, como desdobramento da alegria pascal e como celebração inicial do mistério da salvação. A própria maneira como o ciclo do Natal se estruturou entre nós aponta para uma semelhança como o tempo pascal: inicia-se por um período de preparação, tem seu auge numa celebração marcante e se prolonga por um determinado tempo. Ainda hoje, em algumas línguas e culturas modernas se fala da "Páscoa do Natal", e em muitos ícones orientais do Natal o menino Jesus é representado com faixas que lembram o sepulcro. Tudo isso para pôr em relevo esta verdade: o ciclo do Natal pertence ao mistério pascal, e nos é dado pela Igreja como uma oportunidade de participarmos mais plenamente no único mistério do Cristo, nosso Senhor!

Num mundo em que o Natal se transformou em sacramento do lucro, festa máxima da religião do mercado, é preciso que encontremos novas formas de resgatar o segredo deste tempo, afirmando profeticamente a esperança. Todas as esperanças! No âmbito pessoal, intensificar o desejo do coração e retomar o sentido da vida. Mas as esperanças são também coletivas: é o sonho do povo por justiça e paz - "as espadas serão transformadas em arado e as lanças em podadeiras" (Is 2,4). É também o desejo da terra, porque "a criação abriga a esperança[...], ela também será libertada do jugo a que foi submetida[...]; a criação geme e sofre em dores de parto até agora e nós também gememos em nosso íntimo esperando a libertação" (Rm 8,18-23).

Assim, a mística do ciclo do Natal abre nosso coração às diferentes manifestações culturais e religiosas da presença de Deus, a uma comunhão com todos os seres do universo... Essa abertura se dá na busca concreta do diálogo, na capacidade de nos alegramos com os pequenos sinais de vida, na aceitação de nossa humanidade e nos esforço de superarmos todo pessimismo e desencanto, para reencontrarmos dentro de nós mesmos a ternura e a compaixão do nosso Deus.

Celebramos o Natal na alegria de saber que a noite corre para o dia, abrindo todo nosso ser para a madrugada do novo dia que vem vindo: Que a vontade, Senhor meu Deus e Deus de nossos pais, seja a de deixar que a tua presença habite em nosso meio. Estende sobre nós o tabernáculo da paz[...]. Protege-nos com a luz da tua glória, pura e santa, que se estenda sobre nossa cabeça, como a águia estende suas asas sobre o ninho[...] (Ritual judaico da festa dos tabernáculos).

CARPANEDO, Penha e GUIMARÃES, Marcelo. Dia do Senhor. Guia para as celebrações das comunidades. Ciclo do Natal ABC. São Paulo: Paulinas e Apostolado Litúrgico, 2009.